O fim de um ciclo

Na última semana, por razões as quais não me cabe aqui elencar, me desfiz de um bem precioso. Não tanto pelo valor financeiro, bem mais pelo sentimental. Um bem imóvel, que por um tempo fora considerado a minha Pasárgada.

Não era outra civilização, tampouco havia lá um rei que era meu amigo. Mas tinha o cheiro do verde, as plantas que floresciam em todas as épocas do ano, os cachorros correndo ao redor da casa avarandada. Melhor ainda era a sensação de liberdade, sem condomínios ou aluguéis.

A minha Pasárgada se foi, ao menos para mim, e junto com ela as últimas reminiscências de uma vida que passou. Garanto, porém, não estar triste. Pelo contrário, pois se a vida é outra, outros são os objetivos.

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Segue poema do grande Manuel Bandeira.

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo incosenqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei um burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’agua
Pra me contar as histórias
Que no tempo de seu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

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*Agora, minha Pasárgada é outra. Mais urbana e com opções culturais. Onde a cerveja é sempre gelada e as conversas, aquelas de mesa de bar, são fontes de boas histórias.

1 comentários:

marcelo disse...

Pois felicidades na nova fase da vida!